segunda-feira, 2 de maio de 2011

O encontro de Frans Krajcberg e Thiago de Mello - Um raro momento histórico


João Meirelles Filho


Frans Krajcberg e Thiago de Mello se encontram na Bahia para homenagem ao escultor polonês-brasileiro. Crédito: João Meirelles Filho
– Eu sou revoltado, não tem um intelectual para dizer que tem um povo nesta floresta! Nos jornais só falam que estão queimando as árvores, e o povo que mora lá? – pergunta Frans Krajcberg.
– Está aqui, ao teu lado, este filho da terra... – e aponto Thiago de Mello – na tua frente!
– Os filhos da floresta não conhecem a floresta – emenda Thiago – e quem conhece é chamado de doido!
– É a luta tremenda, você não pode imaginar! – responde Frans – todo mundo fala Brasil, Brasil, Brasil... mas quem conhece este Brasil? – e arremata – a juventude: completamente despolitizada!
– Frans vai mais longe – e Thiago olha pra mim – a floresta sozinha é só paisagem.
Este é o resumo do diálogo entre o escultor polonês-brasileiro Frans Krajcberg, 90 anos, e o escritor amazonense Thiago de Mello, 85 anos, na ensolarada tarde de 6 de abril, em Salvador. Frans, um dos maiores escultores brasileiros, reconhecido mundialmente, e Thiago de Mello, o grande poeta da Amazônia.

Homem de poucas palavras, palavras afiadas, Frans acompanhava, aflitíssimo, os preparativos para a retrospectiva que abriria no dia seguinte. Instruía seus auxiliares que trouxe de Nova Viçosa, onde mora. A todo momento, observava a demora na montagem da iluminação, a posição das fotografias e esculturas.


Expedição a Juruena, no noroeste do Mato Grosso, em 1986. Crédito: João Meirelles Filho
Sucede que há 25 anos eu não me encontrava com Frans. Em 1984 eu o conheci e logo seguimos para uma expedição a Juruena, no noroeste de Mato Grosso, acompanhado de outro artista plástico, Sepp Baendereck. Na última vez que viajamos, desta vez somente eu e ele, em 1986, eu tinha 25 anos e ele, 65.

O Governo da Bahia, depois de lhe conceder o título de cidadão, agora lhe presenteia com mais esta homenagem no Palacete das Artes Rodin Bahia. “Eu doei tudo para o Governo da Bahia”, Frans fala, com orgulho, em retribuir a terra que o acolheu. Mas está transtornado: “Eu quero ir embora do Brasil! É o quinto roubo agora! E ninguém é preso?”

Demorei a compreender que não se tratava de um roubo qualquer. “Ninguém foi preso, como pode? Um ambiente deste! Roubaram o colar que carreguei a vida toda, que os soldados de Hitler enforcaram com a minha mãe! ...Roubaram a medalha que ganhei do Stalin como herói da guerra!” E ameaça: “No fim do mês eu vou pra Europa. Não volto mais! Há possibilidade que eu vá me instalar lá...”


Encontro com enorme cipó durante a expedição. Crédito: João Meirelles Filho
É difícil compreender que uma obra de tal relevância ainda não mereça atenção. Houve tentativas em Curitiba, em São Paulo, mas, concretamente, só Paris possui um espaço dedicado ao artista. O Governo da Bahia está diante deste desafio: preservar acervo de dezenas de grandes esculturas com materiais tão perecíveis, milhares de gravuras e obras diversas, quinhentos mil slides, milhares de livros... Frans está preocupado, grita por atenção...

As homenagens se sucedem. Minas Gerais também lhe concede uma medalha – a da Inconfidência. A França lhe homenageia com exposições nos próximos meses. Convites para falar no mundo todo... Mas o artista está inquieto: “Há dois anos não faço um único desenho!”

Mas muda de assunto, quer empolgar quem está por perto para a causa da natureza. “Você não sabe o que o mundo está falando da Amazônia! Este é o ano mundial da floresta e ninguém fala disto!” E seus olhos brilham. O mesmo brilho que vi nos olhos do menino de 65 anos subindo em cipós, correndo no mato, pulando de alegria a cada fotografia.

Elogia o apoio do governo da Bahia, o nome da exposição e do catálogo: “Grito: o ano internacional da árvore”. Há um novo livro – Frans Krajcberg – Natureza. São 216 páginas de reproduções fotográficas. Este livro é bem mais alegre que os anteriores, há mais esperança. No entanto, como presenciei algumas delas no momento do clique da máquina, pude sentir o que cada uma representa ao artista.


Frans Krajcberg. Crédito: João Meirelles Filho
Para Thiago de Mello, que assina um poema inédito, “A Arte de Krajcberg, Amor, assombro e fúria”, Frans é o cavaleiro da esperança. “Frans atendeu o chamado/ e entendeu o seu destino,/ que perseverante cumpre/ com amor e indignação.//” Mais adiante segue. “É a sua parte, sua maneira/ luminosa de servir/ mais que à vida da floresta./ à do homem que vive nela,/ à do homem que vive dela”. E conclui: “Não é grito de guariba,/ não é esturro de onça, nem silvo do Curupira./ É a mata pedindo ajuda./ A floresta é a tua casa,/Cuida dela com amor”.

Há uma confissão a fazer. Frans é responsável pela grande guinada profissional de minha vida. Ao acompanhá-lo pela Amazônia na década de 1980, Frans provocou-me profunda reflexão. O seu olhar vibrante para a natureza converteu-me, para sempre, para a carreira de ambientalista. De voluntário da então pequenina ONG em que militava, a Fundação SOS Mata Atlântica, tornei-me profissional, em detrimento do trabalho na empresa familiar de colonização e pecuária.

Também merece uma nota o fato que, dias antes de encontrá-lo na Bahia, descobri um diário e um conjunto de gravações em fitas K7, contendo entrevistas com a biografia de Frans, ambos considerados perdidos. Melhor: ao ler o diário e ouvi-lo em Salvador percebo-o incansável, ocupado em tornar este um mundo melhor. Como quer Thiago, Frans não é uma árvore, é uma floresta. “Eu vejo as queimadas, eu sou um homem queimado”, Frans desabafa. “Você precisa mostrar de uma maneira muito forte as queimadas da Amazônia e os índios. Esta deve ser a prioridade. O mundo quer saber”.

E Thiago concorda. “Não podemos desanimar”, e toca no ombro de Frans, que reage, não gosta de ser cutucado! Mas a sua reação pede um abraço. E Thiago o abraça, ao que Frans se alegra. “Eu adoro este homem (sobre o Thiago)” E retoma seu mantra. “Vocês não sabem o que está acontecendo nesta Amazônia, não tem um brasileiro que diz que tem um povo que mora na floresta. Eu grito pela Amazônia!”

Em 1978 os artistas plásticos Frans Krajcberg e Sepp Baendereck e o crítico de arte Pierre Restany escreveram o Manifesto do Rio Negro, pelo naturalismo integral. Thiago acredita que as mudanças climáticas, o avanço sobre a floresta e o planeta no limite, exijam um novo manifesto (planos para o futuro). Um manifesto amplo pela cultura; a Amazônia respeitada pelo que ela é! Não por seu potencial econômico, energia hidrelétrica, o emprego imediato da biodiversidade. A Amazônia respeitada por sua Natureza e Cultura.

Mesmo emocionado com as homenagens pelos 90 anos, transtornado com os sucessivos roubos, e decidido a mudar-se para a Europa, Frans ainda acalenta a vontade de retornar à Amazônia, de visitar a casa de Thiago de Mello, no rio Andirá, em Barreirinha, no Amazonas. “Quero ficar de frente para uma árvore o tempo que eu quiser, fotografando. Quero fazer imagens da Amazônia, filmar, eu gostaria de fazer imagem de trabalho, eu quero entrar seriamente na mata. Quero viajar para o Rio Negro, fazer um livro só de texturas da água!... O mundo fala muito da Amazônia, e nós podemos mundialmente reforçar!”. E Thiago de Mello arrebata “É o cavaleiro da esperança. É o pacto do amor do Homem com a Floresta!”


João Meirelles Filho é colaborador de ((o)) ecoAmazonia, diretor do Instituto Peabiru e escritor (Livro de Ouro da Amazônia e Grandes Expedições à Amazônia Brasileira 1500 - 1930). No momento escreve o livro - Grandes Expedições à Amazônia Brasileira – Século XX, onde haverá um capítulo dedicado a Frans Krajcberg e outro a Thiago de Mello.

Um comentário:

  1. Fiquei muito feliz ao encontrar esse blog. Sou professora da rede estadual do Pará e esse ano, adotamos como tema a ser trabalhado com nossos alunos "A vida no planeta". Para início de conversa, trabalharemos com o sub-tema "cidadania", pautados na discussão da sustentabilidade. Se possível, você poderia me indicar uma bibliografia inicial para estudos? Desde já agradeço e o parabenizo por esse blog.

    Abraços!

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