sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"Cagada" na cabeça


Na Praça Batista Campos em Belém do Pará, a proliferação de aves, passarinhos e pássaros maiores, pululando entre as folhagens espessas das árvores, é algo que chama muito a atenção de quem visita a praça.
Num domingo desses, passei por lá e não me contive em apreciar as quatro imensas sumaumeiras frondosas que iluminam e embelezam poeticamente o ambiente já tão rico e arejado.
Fiquei um bom tempo apreciando, olhava pra cima a tal ponto e por tanto tempo que meu pescoço endureceu naquela posição. A visão era impressionante, lembrei-me do filme Avatar, onde a natureza mantinha uma conexão física e psíquica com os habitantes do planeta. Acredito que o nosso também é um organismo vivo, que os gregos denominavam de Gaia, onde a fraca sensibilidade humana ainda não conseguiu se conectar a essa impressionante expressão do universo.
As copas das árvores espraiam-se harmoniosamente, entrelaçando-se umas nas outras, seus galhos imensos tocam-se e esfregam-se, num frenesi constante, suave e vibrante. De vez em quando se ouve um estalo, é o vento soprando mais forte, emitindo seus assobios insinuantes. Logo acima, o céu azul e alguns raios de sol, infiltrados por entre as nuvens abrem-se ocupando o expressivo vazio entre as árvores e o chão da praça.
O barulho dos passarinhos, vez por outra torna-se quase ensurdecedor, mas é um ruído muito agradável, faz cócegas no ouvido e eleva minha alma. Não é difícil se emocionar diante desse envolvimento da natureza. Lembrei de repente, que a alguns metros, na rua ao lado, muitos carros passam, barulhentos, mas me dou conta que não os ouço, embevecido que estou em minha conexão com a fauna e flora daquele lugar.
De repente... pof! Cai uma espécie de líquido esbranquiçado e pastoso, certeiro, bem na minha testa, despertei num susto do meu desligamento, passei a mão e fiz cara feia, era cocô de passarinho.
Dos males o menor, uma “cagada” na cabeça sempre é melhor do que uma cidade sem árvores e sem ninhos.
Saí de lá assobiando tranquilo. Minha manhã de domingo não poderia ter sido melhor.

Caboco Nirso

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Xidó

          Olha só a figura: Homem preto, bem preto mesmo, estatura mediana, gordinho, barriga bem avantajada e roliça, pernas finas, meio careca, dentuço, com um sorriso infantil maravilhoso, branco e espaçoso. Imagine essa figura impressionante caminhando no mato só de cueca, botas de couro cano baixo, meias negras puxadas até a canela. É assim que lembro dele caminhando nas intermináveis picadas mata à dentro.
Pessoa das mais benignas e bonachonas que conheci, o Xidó. Não lembro seu nome de batismo, pois nos trabalhos de campo todos tem apelido, alguns não gostam e dá até confusão, outros, caso do Xidó, vira identidade e seu nome verdadeiro fica perdido nos corações e mentes de seus familiares.
          Conheci esse maravilhoso personagem nos trabalhos que fiz como geólogo no Rio Jatapú e em Rondônia nos anos de 1983 a 1990. Não me lembro de um momento sequer dele sério, demonstrando infelicidade ou insatisfação, vivia sempre sorrindo e caminhando lentamente para realizar seu trabalho. Era o motorista da lancha que levava a "piãozada" pro mato, para realizar serviços de sondagem e topografia, pois na Amazônia os rios são como ruas e os veículos de transporte são as lanchas, as canoas e os barcos.
          Do nosso acampamento nas margens do Rio Jatapú na foz do Igarapé Arraia até a cidade de Urucará levávamos cerca de três horas de viagem em uma lancha pequena de alumínio, com um motor Yamaha de 25 HP. Eu normalmente cochilava, lia, olhava a belíssima paisagem e a fauna farta da região, pensava, ficava com dores nas costas, jogava água na cabeça, tirava e colocava o chapéu várias vezes e me impressionava com a impassividade do Xidó na popa da lancha segurando o leme. O barulho do motor se tornava ao longo do tempo uma canção de ninar, e o Xidó lá, firme, tranquilo, alerta, olhava-o vez por outra e ele sorria, sereno. Dava-me muita tranquilidade e segurança. Eu sabia que chegar ao nosso destino era apenas uma questão de tempo, pois tudo o mais estava resolvido pelo meu querido amigo e companheiro de labuta.
          Sinto-me privilegiado de conviver com figuras e personagens como esta, o Xidó, amigão, protetor, parceiro incondicional. Quando chegávamos a Urucará, normalmente eu subia uma ribanceira e ia tomar as providências administrativas necessárias para manter a equipe de pesquisa no campo, fazia compras de rancho, deixava minhas coisas no hotelzinho do Beltrão, buscava o posto da telefônica, ligava para nossa sede em Manaus e dava notícias, enfim, cuidava da logística e das nossas necessidades técnicas. Nunca me preocupava com o que fazer da lancha, isso o Xidó dava um jeito e normalmente era melhor do que eu poderia fazer, puxava-a sozinho ribanceira acima, guardava no quintal do hotel e colocava um cadeado bem grosso pra não ficarmos a ver navios. Quando terminava de fazer as coisas, já à boca da noite, saíamos pra namorar, pra dançar, pra beber e outras coisas mais. Nunca vi o Xidó com namorada, mas ele se gabava que tinha uma lá pras bandas do campo de futebol, eu acreditava e dava todo o apoio, mas nunca vi a garota.
          Perdi contato com ele em 1991 e nunca mais o vi. Sei, no entanto que ele lembra de mim com carinho, assim como eu, éramos amigos, dividimos muitas vezes nossas tristezas, dormimos inúmeras vezes à luz do luar por entre as folhas fartas dos arvoredos amazônicos, rimos de nós mesmos fazendo traquinagens nas cidades por onde passávamos, sentimos medo dos perigos que enfrentamos nos rios caudalosos da região, ouvimos juntos os barulhos inconfundíveis da floresta e nunca me esqueço do dia que ele ficou ao meu lado e me defendeu diante de toda a turma de trabalhadores que se amotinaram após uma dura e cansativa jornada de campo. Por isso finalizo minhas lembranças expressando minha gratidão e meu grande afeto pelo inesquecível Xidó.

Caboco Nirso

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Especialista defende produção de abelhas sem ferrão na Amazônia

Mel amazônico poderia ser exportado para outros países, acredita. ’A grande reserva de abelhas sem ferrão está na Amazônia’, diz.
A produção e exportação do mel de abelhas sem ferrão na Amazônia podem ser uma alternativa econômica viável para as comunidades da região. A ideia foi defendida pelo coordenador do Departamento de Entomologia do Instituto Nacional Pesquisas da Amazônia (Inpa) e especialista em interações abelha-planta e taxonomia, Márcio Luis de Oliveira, em uma conferência sobre o tema, neste sábado (26), durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorre em Rio Branco.
Segundo o especialista, embora as abelhas sem ferrão possam ser encontradas em praticamente todos os países tropicais, não existe atualmente população mais diversa que a encontrada na Amazônia, com aproximadamente 150 catalogadas até o momento. Isso colocaria a Amazônia em vantagem na produção do mel nativo.
“No México havia, mas as abelhas desapareceram por conta do crescimento das cidades, desmatamento. Então a grande reserva de abelhas sem ferrão está na Amazônia, temos uma quantidade enorme de espécies e poderíamos canalizar isso aí para melhoria de renda, da qualidade de vida da população”, enfatiza.
Oliveira acredita que se bem organizada, a ideia poderia ganhar o mercado internacional por conta do cárater “exótico” do produto.
“Os EUA não têm esse mel, o Japão não tem, Europa não tem, então se isso entra na mesa dessas pessoas eles pagariam um preço alto, porque é uma coisa exótica. Assim como nós pagamos hoje por um salmão. Imagina, um produto orgânico da Amazônia, praticado pelos índios e ribeirinhos. Entraria [no mercado] com um preço bastante vantajoso”, especula.
O especialista diz ainda que mesmo que o produtor não trabalhe com a produção de mel, poderia criar abelhas para alugar para que elas fizessem a polinização em criações de cupuaçu, pupunha de outros produtores rurais.
Incentivos
Porém, para o projeto “decolar”, o pesquisador diz que é preciso incentivo do poder público.  ”Existem instituições e gente interessada, mas precisa de incentivo fiscal.  Porque um agricultor descapitalizado que vive da produção de farinha ou banana, não tem capital para investir em colméias, fazer treinamento, a compra dos primeiros equipamentos”, diz.
Abelhas africanizadas
Porém, as perspectivas são boas para a criação de abelhas sem ferrão na Amazônia, o mesmo não pode ser dito das abelhas africanizadas, aquelas que possuem ferrão e geralmente são encontradas na maioria das cidades brasileiras.
“Pensou-se que a criação de abelhas africanizadas seria uma alternativa para alavancar a produção de mel no Brasil. Porque o pensamento era assim: temos uma grande dimensão territorial e a mais rica floresta do mundo. Pensava-se que com isso a apicultura iria suplantar por exemplo a Argentina, mas o que se descobriu é que as abelhas africanizadas nem sequer visitam as plantas da floresta amazônica. Por alguns motivos que a gente ainda está investigando”, relata.
Por conta disso o pesquisador diz que não é recomendado pensar em apicultura em grande escala em áreas de floresta. Apenas em áreas que já foram desmatadas e ao longo de estradas. “Seria uma boa alternativa de renda para as famílias de agricultores, acho que poderia entrar como um acréscimo na alimentação e na renda”, defende.
Por: Yuri Marcel
Fonte: G1 

Desmatamento da Amazônia aumenta poluição em países da América do Sul

Desmatamento da Amazônia aumenta poluição em países da América do Sul

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Educar os sentimentos, uma reflexão para a superação na vida.

Existem três palavras muito importantes, conhecimento, atitude e sentimento. Todos nós podemos adquirir com certa facilidade muitos conhecimentos, nossa mente está preparada para abordar uma infinidade de informações, das quais uma pequena parte é armazenada e retida na memória indo juntar-se com outras mais. A busca pelo conhecimento deve ser contínua, envolvendo uma vida inteira, culminando se possível com o último suspiro do ser humano antes de partir para a vida maior.
Só o conhecimento, porém não nos torna pessoas completas, precisamos decidir o que fazer com ele e para isso O Criador nos proporcionou o direito de escolher, o que denominamos Livre Arbítrio. Muitos de nós não arredamos os pés do lugar, mantemo-nos indiferentes aos acontecimentos, o que culmina muitas vezes em uma vida vazia, desprovida de obras e de ações no bem. É necessário caminhar, ter liberdade de escolher seu próprio caminho, não significa despreocupação ou irresponsabilidade com as consequências, as quais muitas vezes podem consumir uma grande parte de nossas vidas, como efeito de pequenas e insignificantes inconsequências. “A semeadura é livre, a colheita, porém é obrigatória”.
A atitude positiva e proativa diante dos fatos significa ir ao encontro dos nossos objetivos, queremos sempre acertar, as intenções são as melhores possíveis, entretanto erramos, acertamos, mudamos os rumos e pegamos atalhos. Os atropelos, os obstáculos, não passam de experiências para nos tornarmos melhores e o que chamamos de sofrimento são as melhores oportunidades de crescimento pessoal. Sofrer não é bom, mas diante da dor, podemos buscar a serenidade e refletir sinceramente no porque dos acontecimentos. Algo nos dirá que tudo está no seu devido lugar, as pessoas com as quais convivemos são as melhores para nós, a cidade em que moramos é o melhor lugar do mundo para se viver, o nosso trabalho é uma benção, estamos vivendo na melhor época de todos os tempos e tudo o que acontece conosco não é por acaso e sim parte de um planejamento maior para nos beneficiar. Sem pensar assim, estaríamos negando a existência de Deus. Sim, Deus existe, ele é Pai, é eterno, é perfeito, é infinitamente justo e bom, conhece nossa origem e nosso futuro. Isso tudo nos leva a deduzir que nossa salvação ou felicidade eterna é apenas uma questão de tempo.
Podemos decidir ser bons, fazer o bem e a tudo superar apenas com a força da nossa determinação. O conhecimento e a atitude são fundamentais. O que buscamos, no entanto, como criaturas divinas, o que nos impele ao crescimento é ser a própria mensagem daquilo que dizemos e fazemos. Para isso vamos ter que “ralar”, exercitar o bem, praticar a solidariedade, vencer nosso comodismo, superar a nós mesmos como seres em franca evolução, desenvolver a paz em si, viver cada dia como se fosse o único de nossas vidas. O sentimento desenvolvido e maduro não tem limites. “No seu ponto de partida, o homem só tem instintos; mais avançado e corrompido, só tem sensações; mais instruído e purificado, tem sentimentos; e o amor é o requinte do sentimento. Não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior, que reúne e condensa em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei do amor substitui a personalidade pela fusão dos seres e extingue as misérias sociais (Evangelho Segundo o Espiritismo)”.

Poucos vivenciaram a grande mensagem, “amai-vos uns aos outros”, praticaram essa verdade espontaneamente como um sentimento implícito e natural de suas personalidades e caráter. Apenas um homem, no entanto mostrou condições para completar a frase e disse: “como eu vos amei”, Jesus, que sabia da importância de amar, decidiu amar e amou de verdade como apenas ele foi capaz.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Jornada é o destino


A Fotógrafa Renata Aguiar Rodrigues, num texto primoroso que lembra os grandes viajantes do mundo, como Marco Polo, vivencia e repassa ao mundo as mesmas impressões daqueles, experiências fantásticas, para eles, tão surrealistas que poucos foram capazes de entendê-las como grandeza da natureza em uma realidade que proclama a diversidade cultural, como se o DNA dos seres humanos fosse uma construção artística. Mesmo suspeito para comentar, fiquei chocado com a densidade que essas imagens comportam e me coloquei diante delas com o olhar pasmo da artista. Fiquei também angustiado, mas feliz; fiquei ansioso, mas tranquilo; uma ternura me envolveu por ter alguém tão próximo olhando assim para um mesmo mundo que o nosso, mas também tão diferente, belo e emocionante. O título poderia bem ser, "O bom da viagem é a estrada", música muito querida de uma grande amiga. Deliciem-se e participem da exposição que está acontecendo na UNAMA-Belém/PA até dia 22 de novembro de 2013.
E agora leiam com bastante atenção:

"A jornada é o destino" é uma obra fotográfica composta por 16 retratos de pessoas que encontrei no decorrer dos dois meses que tenho vivido na Índia. O olhar destes desconhecidos entra em choque com o olhar estrangeiro (o meu olhar, sempre tão nativo, aqui se tornou o olhar do outro), confrontando-o ou conformando-o. 

Como fotografa vim para a Índia em busca. Como muitos artistas ocidentais no passado e hoje que se aventuraram ao desconhecido e misterioso oriente (fetichistas orientalistas que se renovam), vim eu também para esse destino imaginário, porem confrontada com a realidade, me dei conta que esse destino que buscava encontrar está posto no caminho, sempre no caminho... 


Na jornada pelos Himalaias, indo de um vale a outro, passando pelo topo do mundo, encontrei pessoas, construí retratos e guardei imagens que agora são parte de mim.  Me surpreendi com os quebradores de pedras, um oficio que pensei, estava morto. Assim a primeira vista, olhei para esses homens e mulheres como fantasmas de um passado que não pude nem datar. Ido o primeiro impacto, me pus a pensar na vida que levam essas pessoas que quebram pedras construindo estradas pelo Himalaia, uma lugar árido, frio, muito frio. O olhar dessa gente me intriga, me perturba e agora me acompanha. 


Descobri, que a maioria deles, vive ali mesmo, nas redondezas, foi o que me disseram... Mas onde? Não existem vilas por pelo menos 6 horas de carro dali, vi alguns acampamentos, tendas! Um sentimento de solidão me invadiu. Como o mundo é imenso, como o ser humano é  pequeno e desamparado e enfim, como a beleza é capaz de permear a melancolia, principalmente aos olhos de quem a vê de fora, confortavelmente sentado num carro... como pode o artista ser responsável? como pode o fotografo não ser um usurpador de imagens? A arte não faz do mundo um lugar melhor, nem tão pouco "[...] reproduz o que vemos. Ela nos faz ver." (Paul Klee) o que sem ela seria invisível.

Tendo, então, o invisível como ponto de conversão, tive o privilegio de conhecer uma comunidade de muito pouca visibilidade, da qual, aliais, nunca ouvira falar; encravada no vale Dhahanu no distrito de Ladakh no estado Jammur e Caxemira  próxima a fronteira da Índia com o Paquistão. Vivem, ainda de forma muito tradicional, um povo que se intitula ariano e é conhecido como Brokpa, tendo uma aparência indo-europeia, em contraste com a predominância étnica tibeto-mongol da região. Ainda no caminho, no ônibus, pude ver algumas pessoas, homens e mulheres, com ornamentos e flores na cabeça... o cobrador da condução me avisou, esse é o povo Brokpa de Dha.

O caminho para chegar ao vale é longo, cerca de 8 horas, mas as paisagens são de tirar o folego. Em ônibus local (péssimas condições, super lotado de pessoas e artigos os mais diversos) serpenteamos, chacoalhando por um caminho ladeado por paredões intransponíveis e abismos escavados por eras de degelo do Himalaia, as paisagens mais arrebatadoras que já vi, um sentimento de angustia e liberdade.

No entanto, chegando a vila Dha, tudo se tornou, de repente, morno, pequeno e aconchegante: um útero! O lugar em si muito fértil, verde, ladeado pelas incríveis montanhas tendo acima o céu mais azul. 



Meu único pesar, é saber que essa cultura esta fadada a desaparecer, os jovens da vila, já não usam mais os ornamentos tradicionais, e nem mesmo nos festivais preservam as danças. Lá ouvi do dono da única pousada, que ele acredita que a cultura tradicional do vale está morrendo, principalmente por conta das estradas que dão acesso a vila e portanto a educação formal (o que para os mais tradicionais, está desvirtuando os valores de sua cultura) e da forte presença do exercito na região, que é foco histórico de atritos com o vizinho Paquistão, onde também vive uma parte do povo Brokpa.  

Essa gente vive num isolamento que nunca tinha visto antes, sem luz elétrica, sem gás, criam seus animais e plantam o que comem. O que sobra da produção de vegetais, vendem para o exercito. Na vila percebi a ausência dos homens jovens, haviam apenas crianças, mulheres de todas as idades e idosos. A enfermeira residente na vila me contou que a maioria dos homens sai para procurar emprego em Leh, capital do estado e outros muitos vão para o exercito, mas não sem antes casar e deixar pelo menos um bom punhado de herdeiros (se assemelhando a tantos outros lugares do mundo em que as cidades grandes atraem retirantes).



Em Deli todos os dias indo trabalhar passo pelo vendedor de maças, uma vez ele me pediu uma foto, a razão, pelo que pude entender, era apenas para ver sua imagem na câmera.  Uma atitude muito comum aqui na Índia, no meu entendimento, ser fotografado, especialmente por um estrangeiro revela uma vontade de reconhecimento e de fuga e ainda (pasmem) fascínio. Reconhecimento como digno de um retrato, da atenção daquele que olha; o olhar aqui que é fonte de poder, não o poder disciplinador do olhar Foucaultiano,  mas o poder de criação, como se esse olhar lhe outorgasse a existência. 

Fato compreensível considerando-se que a Índia é um dos países mais populosos do mundo e onde um sistema de castas, que difere os cidadãos no berço, ainda é forte, embora esteja coberto por uma névoa para aqueles que não falam a língua local, como eu; ainda assim posso sentir essa diferenciação que é altamente naturalizada na sociedade indiana e que vai se somar, as nossas já familiares diferenciações de classes sociais criadas pelo capitalismo de uma emergente semiperiferia.
 

A ideia de expor essas fotografias agora, surgiu quando recebi por e-mail um convite, da minha professora da graduação, Janice Lima, direcionado a todos os alunos egressos para participar da mostra que comemora os 25 anos do curso de Artes Visuais e Tecnologia da Imagem na Universidade da Amazônia -UNAMA. Constituídas em forma de projeção as 16 imagens configuram um apanhado sensorial imagético da minha experiencia de viajar e voltar o olhar para essas pessoas, em lugares e culturas desconhecidas, atravessada pela ideia de que o ser humano é igual e diverso em várias nuances.



Quem estiver em Belém e quiser conferir essas e mais fotografias dessa jornada inprogress a mostra acontece até dia 22 de novembro de 2013.



domingo, 15 de setembro de 2013

Aborto induzido, uma opção pela morte.

    No dia 15 de setembro de 2013 em Belém, foi realizada a I Marcha Paraense da Cidadania pela Vida apoiando o movimento nacional, Brasil sem Aborto.
     “Aborto é a interrupção da gravidez com a destruição do produto da concepção. É a morte do ovo (até três semanas de gestação), embrião (de três semanas a três meses) ou feto (após três meses), não implicando necessariamente sua expulsão. O produto da concepção pode ser dissolvido, reabsorvido pelo organismo da mulher ou até mumificado, ou pode a gestante morrer antes da expulsão.           Não deixará de haver, no caso, o aborto.” (Júlio Fabrini Mirabete, Manual de Direito Penal, 5. ed., p. 73).
    Para embasar quem quer saber a respeito da legislação sobre o aborto, vejam algumas leis:
Constituição Federal Brasileira
Art. 5º - “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”
Código Civil Brasileiro
Art. 2º- A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. (Theotônio Negrão e José Roberto Ferreira Gouvêa, Código Civil e legislação civil em vigor, 22.ed., p. 39).
Código Penal Brasileiro
Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento
Art. 124. Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem Iho provoque: Pena - detenção de 1 (um) a 3 (três) anos.
Aborto provocado por terceiro
Art. 125. Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos.
Art. 126. Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos.
Aborto necessário: I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;
Aborto no caso de gravidez resultante de estupro: II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.” (Código Penal Brasileiro).

    Encontrei na internet muitas opiniões sobre o aborto, mas fiquei muito impressionado com as opiniões e posicionamentos do jornalista e advogado Cleber Benvegnú do blog Senso Incomum, do qual extrai algumas das informações a seguir.
    “Os pró-aborto certamente não pretendem ver com seus próprios olhos o ato que dizem legítimo: o efeito das drogas queimando as entranhas de um menino ou de uma menina em formação, um ser destruído por remédio ou bisturi. É apelação entrar nesses detalhes? Ora, mas é isso mesmo que acontece: pessoas crescidas, adultas e com barba na cara decidem sobre outra – pequena e indefesa – que caminha para nascer. E, sob a alegação de uma potencial infelicidade ou rejeição, já a querem morta desde logo.”
    “A legalização tiraria o aborto da clandestinidade – alegam. Morreriam menos fetos do que agora – acrescentam. Ora, mas que diploma de direito humano é este que pretende combater um mal com a legitimação de outro? Há clínicas clandestinas? Fechem-nas. A criança será rejeitada pelos pais? Deem-na a pais afetivos e agilizem as leis de adoção. Tudo menos rifar o feto. Fico cá me perguntando, independentemente das teorias sobre o início da vida: o que seria o feto senão vida humana? O quê? Um mero amontoado de carnes e cartilagens, cujo desenho se assemelha a nós? Ou apenas uma “vida em potencial”, mesmo tendo um DNA exclusivo em toda a natureza? O que os olhos não veem o coração não sente: essa é a nova lógica humanista que queremos legitimar?”
    Diante das pressões dos diversos movimentos pró e contra o aborto, o Conselho Nacional de Medicina, representando mais de 400.000 médicos no país, se posicionou sobre o assunto de forma muito indecisa, não ficou nem contra, nem a favor, muito pelo contrário, agiu de forma hipócrita, utilizando-se de sofismas, sem contar que enfrenta grande parte da ciência – a maior parte dela, a propósito –, segunda a qual o início da vida ocorre na concepção.
    Há também a suspeita de manipulação de dados pelos pró-aborto, visto que em 2012 o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, contestou informações divulgadas pela Organização das Nações Unidas segundo as quais 200 mil mulheres morrem anualmente no Brasil por causa de abortos de risco. Ele acredita que pode ter havido confusão com outro dado, já que cerca de 200 mil mulheres se submetem a curetagens por ano no Brasil, procedimento muito utilizado após o processo abortivo.
    Em função desses dados distorcidos a ONU cobrou posição do governo brasileiro durante a 51ª sessão do Comitê Para a Eliminação de Discriminação Contra as Mulheres, que ocorreu em Genebra, quando a perita suíça Patrícia Schulz pediu esclarecimentos ao governo brasileiro, sem poupar críticas. "O que vocês vão fazer com esse problema politico enorme que têm"? Aí é de se perguntar, quem forneceu tais dados para a ONU?         Com que propósito? Com que interesses?
   Até aqui nenhum argumento religioso foi utilizado, mas porque não fazê-lo, visto que é legítimo que cristãos busquem influenciar nos debates sociais – ou deveriam silenciar em favor da ditadura ateia que muitos intentam criar?
    E no caso dos fetos anencéfalos, embora tenham sistema nervoso central incompleto sentem dor e reagem a estímulos. A Portaria nº 487/2007, do Ministério da Saúde, atesta isso. Ademais, há inúmeros relatos de fetos com má-formação cerebral que resistiram bem mais do que alguns segundos.
   Dados da última campanha presidencial, quando o assunto foi plenamente utilizado pelos candidatos com intenções eleitoreiras, atestam que uma mulher aborta a cada 33 segundos e a prática insegura mata uma brasileira a cada dois dias, sendo que um abortamento é feito para cada 3,5 nascidos vivos.
   De acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), 183,6 mil atendimentos de mulheres que abortaram, sofreram complicações e precisaram passar por uma curetagem foram feitos em 2009. Segundo as estimativas dos médicos, para cada caso que acaba no hospital, outros quatro abortos foram feitos no mais absoluto silêncio. Só em 2009, 942.713 abortamentos induzidos foram realizados no país.
    Quem defende a descriminalização do aborto e alega que isso é de politica DE SAÚDE PUBLICA (como se gravidez fosse câncer), utiliza os números de 183 mil mulheres que sofrem complicações por abortos clandestinos por ano.
    Os números - eles novamente - indicam que para cada complicação, outros quatro abortos também são feitos.
    Vamos agora supor que não exista criminalização e que o Estado ainda pague pelos abortos por gravidez indesejada... Bem, está aí um número que eu não faço a menor ideia: o de mulheres que se sentirão mais estimuladas a praticarem o aborto.
    Ou seja, ao invés de orientação sexual adequada, distribuição de métodos contraceptivos leves e preventivos, de ACOLHIDA FAMILIAR, de condições socioeconômicas adequadas para criação de um filho, o mais fácil para os defensores do aborto é... matar.
   O certo é que o tema ainda levanta muitas dúvidas, e são dúvidas sobre a vida, mas na dúvida, sempre é melhor matar o feto indefeso, é o que se interpreta do movimento pró-aborto. Uma aberração condicionada pelo comodismo diante de problemática social que merece abordagem científica, ética e religiosa. Há uma visão eugênica no trato dessa questão que é preciso estancar pela força de um passado, quando homens insignificantes, mas com grande poder quiseram fazer o papel de deus, tentando selecionar as raças superiores e eliminar o que consideravam inferiores. Desrespeito total pela vida, carniceiros, mortos a maioria na forca do julgamento de crimes de guerra da II Guerra Mundial.
    Nem pena de morte, nem aborto pra ninguém, quem já nasceu agradeça a seus pais a decisão e a coragem de terem filhos, mas deixem os outros nascerem em paz, eles merecem, quero dizer, eles têm direitos.



Caboco Nirso

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Violência ou paz?

Com o advento dos movimentos de rua em todo o país, surge em vários canais de comunicação reflexões, artigos, pensamentos que levantam a questão da validade e da efetividade de conquistas sociais com o uso da violência. Existe o movimento Black Block, surgido em várias partes do mundo, que se autodenomina anarquista, onde normalmente jovens encapuzados enfrentam a polícia e as autoridades constituídas com coquetéis molotov, ateiam fogo em veículos, quebram vidraças, buscam pela pressão da violência uma resposta mais imediata para suas reinvindicações. Não podemos simplesmente rotulá-los de baderneiros, vândalos como a maioria da mídia faz, sem antes refletir sobre o que leva pessoas de costumes normais, até pacíficos no cotidiano, a decidir pela agressão material do patrimônio publico. Primeiro é importante verificar que, à semelhança de um animal ferido, o ser humano, que também tem seus instintos animais, pode agir de forma violenta quando se vê acuado. Trata-se no caso das inúmeras injustiças sociais de representantes do povo que se comportam como verdadeiros déspotas, arbitrários, abusando sobremaneira da autoridade, concedida a eles pela lei, para cuidar com carinho e idoneidade da coisa pública e principalmente dos cidadãos, sejam eles quem forem.
Se avaliada apenas emocionalmente, considerando um sistema político decepcionante e desmotivador, onde as urnas são o foco principal da ação dos corruptos e arrogantes políticos; a maioria dos recursos vindo do povo são indevidamente apropriados; o benefício sempre de uma minoria que foi colocada na função de representantes do povo com uma grande expectativa e até sonhos: Podemos ficar tão indignados e decepcionados que pode não restar nada a não ser uma revolta desconcertante que pode abalar toda a estrutura comportamental e ver a violência como única forma de exercer a cidadania e provocar as mudanças necessárias.
Esse debate precisa ser bem ampliado, pois a violência vem de todos os lados, e principalmente dos governantes, a corrupção é criminosa, rasteira, secreta, egocêntrica, mata de fome, fome de comida, de conhecimentos, de educação, mata de mentiras, de demagogia, distorce todos os valores da sociedade, e o pior, parece ser hereditária, não para de crescer, é uma violência incrível, infeliz, revoltante.
Mas, mas, e mas, não, não podemos cair nesse poço, a humanidade já cresceu, já fez muitas conquistas, com violência e sem violência, porém, todos os valores humanos nos levam para a busca da paz, o ser humano não se sente bem de forma violenta, a consciência lhe impõe naturalmente barreiras que vem do íntimo, das profundezas onde a paz alimenta nossa felicidade.
Sou daqueles que acreditam que estamos evoluindo, crescendo, que a maioria é feita de gente boa, honesta, que a natureza é do bem, que podemos fazer nossas conquistas pacificamente. Um personagem bem marcante que corrobora com a vitória da não violência é a figura absolutamente iluminada de Nelson Mandela, hoje já nos seus últimos momentos no planeta terra. Acho que não podemos imaginar o sofrimento da África do Sul com o Apartheid, onde a cor de uns fazia com que se sentissem superiores aos outros. Levou muito tempo e sofrimento, mas o grande herói à frente de um povo determinado chegou lá e foi a grandeza de espírito desse homem que fez com que todas as pessoas se unissem independente de cor, sendo o perdão um dos sentimentos essenciais para libertar o povo das mágoas de longos anos de violência.

A violência é um mal! Uma doença da humanidade ainda em processo de cura. Mas nem sempre é mau quem é violento! Ponto!

Caboco Nirso