sábado, 31 de julho de 2010

Brasil debate se felicidade é um estado passageiro ou direito constitucional

A felicidade é um estado momentâneo e passageiro de espírito ou tem que ser garantida pelo Estado? O debate está aberto no Brasil, onde se questiona se a Constituição deve colocar 'ser feliz' entre os direitos fundamentais.


"São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança (pessoal e social), a proteção da maternidade e da infância e a assistência aos desemparados", diz o parágrafo que o "Movimento Mais Feliz" deseja que seja incluído na Constituição.


Pelas mãos dessa organização não-governamental, o assunto chegou ao Senado, onde o senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque, do (PDT), já organizou um debate sobre a proposta.


Muitos dizem, e inclusive algumas pesquisas confirmam, que não existe um país mais feliz em toda América do Sul do que o Brasil. Só outras duas nações o superam em todo o continente (Costa Rica e Canadá).


Uma pesquisa realizada pelo Instituto Gallup e publicada pela revista "Forbes" no começo de junho coloca o Brasil na 12ª posição, junto ao Panamá, entre os lugares mais felizes do mundo.


A pesquisa foi feita em 155 países entre 2005 e 2009 e, no caso dos brasileiros, mais da metade da população se considera "feliz" e menos de 2% dizem estar "sofrendo".


A questão da felicidade é tão antiga como o homem e países como os Estados Unidos, França, Japão e Coreia do Sul já incluíram esta palavra na própria Constituição.


A felicidade é adotada cada vez mais por diversas nações como um dos principais parâmetros para medir o bem-estar de uma sociedade.


O Butão, um pequeno reino do Himalaia situado entre a China e a Índia, foi pioneiro em iniciativas dirigidas a conhecer o grau de satisfação de seus habitantes e criou há duas décadas o índice da Felicidade Interna Bruta (FIB).


No caso do Brasil, a proposta é que os direitos sociais, que estão enumerados no sexto artigo da Constituição, sejam considerados essenciais para a "busca da felicidade".


O senador Buarque, o parlamentar mais entusiasta do projeto, explicou à Agência Efe que o texto proposto tem o objetivo de "humanizar a Constituição, levando o conceito político (dos direitos) a um nível mais humano, que coincide com a felicidade", para "conscientizar às pessoas sobre dos direitos sociais".


O fundador do movimento, Mauro Motoryn, que se declara um homem feliz, explicou à Efe que o "Estado tem que criar as condições essenciais para que as pessoas sejam felizes", não só assegurar direitos como educação e saúde, mas para que "sejam de qualidade" e o cidadão possa "alcançar a felicidade".


Até a Igreja Católica participou do debate, enviando um representante a uma sessão do Congresso para dizer que prefere que na Constituição se fale de "bem-estar individual", pois segundo o Episcopado brasileiro a noção de felicidade é "algo subjetivo".


Daniel Seidel, secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz do Episcopado, considera a proposta "uma grande campanha de marketing", porque o que realmente impede a felicidade dos cidadãos é a "corrupção e os políticos corruptos que roubam o dinheiro público".


Morotyn disse à Efe que, nos primeiros dias do mês de agosto, o movimento apresentará a proposta à Câmara dos Deputados, onde se deverá começar a decidir se o Brasil será um país feliz também segundo a lei. EFE

Stefania Pelusi

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Qual o legado da crise com os pedófilos na Igreja?



No século XVI no auge do poder dos Papas renascentistas em Roma envoltos em escândalos de toda ordem, surgiu um clamor em toda a Igreja de “reforma na cabeça e nos membros”. Esse clamor vinha dos leigos, do baixo clero e dos teólogos como Lutero, Zwinglio e outros. Em resposta veio a Contra-Reforma que transformou a Igreja Católica num baluarte contra o movimento dos Reformadores, enrijecendo ainda mais suas estruturas de poder.
Agora o escândalo dos padres pedófilos em vários países católicos fez com que surgisse também um vigoroso clamor por reformas estruturais na Igreja. Ele não vem apenas de baixo como no tempo da Reforma, mas principalmente de cima, de cardeais e bispos. Primeiramente, este pecado, este crime gerou uma desastrosa gestão do Vaticano. Inicialmente tentou-se desqualificar os fatos como “fofocas mediáticas”; depois, procurou-se ocultá-los, usando até o “sigilo pontifício” a pretexto de salvaguardar a presumida santidade intrínseca da Igreja; em seguida, minimizaram-se os fatos, ou criou-se o factóide de um complô de obscuras forças laicistas contra a Igreja e por fim, face à impossibilidade de qualquer via de desculpa e de fuga, a verdade incômoda veio à tona.
O Papa tomou medidas severas contra os pedófilos, consideradas insuficientes por muitos da própria Igreja. Pois, não basta a “tolerância zero” e as punições canônicas e civis. Tudo isso vem a posteriori, depois de cometido o delito. Nada se diz como evitar que tais escândalos se repitam e que reformas introduzir na vivência do celibato e na educação dos candidatos ao sacerdócio. Não se coloca como prioritária a salvaguarda das vítimas inocentes, muitas delas revelando um tenebroso vazio espiritual, fruto da traição que sentiram da Igreja, num misto de culpa e de vergonha.
Em seguida, as altas autoridades fizeram-se mutuamente graves acusações. O Card. Cristoph Schönborn de Viena acusou o Cardeal Angelo Sodano, quando era Secretário de Estado (o primeiro posto depois do Papa) de ter ocultado a pedofilia de seu antecessor na sede, o Card. Hans-Herrman Groër. Bispos alemães criticaram a conferência episcopal de não ter sido suficientemente vigilante face aos notórios abusos sexuais do bispo de Ausgburg Walter Mixa, obrigado a renunciar. O mesmo refere-se ao bispo de Bruges da Bélgica que abusou por 8 anos de um seu sobrinho.
Impactante é a autocrítica feita pelo arcebispo de Camberra Mark Coleridge, reconhecendo que a moral da Igreja concernente ao corpo e à sexualidade é rígida e de estilo jansenista, criando nos seminaristas uma “imaturidade institucionalizada”, além da tendência à discreção e ao segredo face aos delitos, para manter o bom nome da Igreja, fruto de um hipócrita triunfalismo. O primaz da Irlanda Diarmuid Martin se perguntou sinceramente pelo futuro da Igreja em seu país, tal o número de pedófilos nas instituições e por muitos e longos anos. Reconhece que reformas são urgentes, pois, a Igreja “não pode ficar aprisionada em seu passado” mas deve introduzir mudanças fundamentais em sua estrutura que impeçam tais desvios. Talvez o documento mais lúcido e corajoso veio do bispo auxiliar de Camberra, Pat Power. Este cobra “uma necessária reforma sistêmica e total das estruturas da Igreja”. Afirma que “na condução da Igreja, toda masculina, não reside toda a sabedoria, mas que ela deve ouvir a voz dos fiéis”. Com coragem reconhece que “se as mulheres tivessem mais poder de decisão, não chegaríamos à crise atual”.
Poderíamos aduzir outras vozes de altas autoridades eclesiásticas. Mas o importante é constatar que este escândalo que afetou o capital de ética e de confiança da Igreja-instituição, paradoxalmente deixou um legado positivo: suscitou a questão das reformas de base, aprovadas pelo Concílio Vaticano II. Estas, porém, foram boicotadas pela Cúria vaticana e pelos dois últimos Papas que se alinharam à uma visão conservadora e contrária à toda modernidade.
Os que amamos a Igreja com suas luzes e sombras queremos entender a atual crise como uma oportunidade suscitada pelo Espírito para que a Igreja-instituição, realmente, encontre a forma melhor de transmitir a boa-nova de Jesus e ajude a humanidade a enfrentar uma crise ainda maior, aquela do sistema-vida e do sistema-Terra, terrivelmente ameaçados.
Leonardo Boff

segunda-feira, 26 de julho de 2010

As lições de um país verde


O país que produz quase metade da energia solar no mundo tem mais dias nebulosos que ensolarados. Parece, no mínimo, um investimento equivocado, mas o motivo de as coisas serem desse jeito explica, em grande parte, o porquê de a Alemanha estar à frente na batalha contra a dependência dos combustíveis fósseis – intensificada com o combate ao aquecimento global e, agora, ainda mais urgente depois do vazamento de petróleo no Golfo do México. Desde muito cedo, os alemães reconheceram a importância da transição para uma economia mais limpa e, recentemente, começaram a colher os frutos de seu pioneirismo.

A Alemanha parece estar em um ritmo completamente diferente das grandes potências. Enquanto a maré negra se espalha e o Brasil só tem olhos para a exploração do pré-sal, os alemães anunciaram uma meta arrojada: em 2050, a previsão é de que toda a eletricidade produzida no país venha de fontes renováveis, como solar, eólica ou biomassa. No ano passado, as fontes alternativas responderam por 16,1% da eletricidade gerada no país. Reportagem de Priscila de Martini, no Zero Hora.

O segredo alemão não é nenhum mistério, e a própria Alemanha busca disseminar as experiências que deram certo para o resto do mundo. O primeiro fator foi uma mudança de postura, que para os europeus ocorreu já na década de 70. Ao contrário dos demais países, a Alemanha resolveu responder à crise do petróleo da época com o investimento em energias limpas. O resultado são décadas de estudos que levaram o país à liderança em tecnologia no setor. Grande parte dos mais modernos equipamentos – de células solares fotovoltaicas a turbinas eólicas – é produzida em território alemão.

– Há muito intercâmbio com a Alemanha, mandamos muitos pesquisadores para universidades de lá. Inclusive, temos aqui na UFRGS um pequeno gerador eólico de uma empresa alemã – diz o peruano Harold Deza Luna, pesquisador em energias renováveis do Laboratório de Transformação Mecânica da UFRGS.

Mas não é só tecnologia que a Alemanha exporta. A legislação criada pelo país para impulsionar a produção de energia renovável foi copiada por cerca de 70 nações mundo afora. A principal delas entrou em vigor em 2000: a Erneuerbare-Energien-Gesetz, conhecida pela sigla EEG – que, segundo Luna, é a maior lição alemã para o Brasil. É o que pensa também a americana Piper Foster, da Sopris Foundation, dos EUA.

– Essa é a medida isolada mais poderosa para combater as mudanças climáticas e incentivar as energias renováveis – disse a pesquisadora, que está há mais de um ano em Berlim para estudar as experiências alemãs no desenvolvimento de energias limpas.

Pela EEG, todo cidadão pode montar uma pequena central de energia de fontes renováveis, que é ligada à rede elétrica. As operadoras do país são obrigadas a comprar o que for produzido em excedente, pagando tarifas preestabelecidas, que valem por 20 anos. Os valores variam de acordo com o tipo de energia, sendo mais altos para as fontes que custam mais e que precisam ser mais desenvolvidas, como a solar fotovoltaica. A diferença de preço é repassada para os consumidores, que têm um pequeno aumento na conta de luz. Assim, o custo-benefício da instalação da tecnologia para esse tipo de energia torna-se muito interessante.

Muitos governos ainda não fazem grandes investimentos em energias renováveis devido ao alto custo. Isto, segundo Piper, é um erro que poderá colocar empresas e países em uma situação muito vulnerável no futuro.

– Quando as pessoas dizem que energia renovável é cara, ignoram o fato de que o preço dos combustíveis fósseis está aumentando e que carvão, gás natural e petróleo estão acabando. Apesar de o custo das energias renováveis ser mais alto no início, podemos prever seu custo no longo prazo, porque vento e sol são gratuitos – finaliza.

(EcoDebate)

domingo, 25 de julho de 2010

Ser pedra ou ser vidraça, eis a questão

O ambiente político de uma cidade, de um estado ou país, é formado por cidadãos que discutem nas ruas, nos órgãos públicos, no ambiente de trabalho, nas suas residências, como gostariam que as decisões fossem tomadas pelos nossos representantes.

Ficam esquecidos muitas vezes como agiram, como se comportaram no momento de votar. Quanta seriedade tiveram diante da urna, aquela maravilhosa caixa eletrônica, onde os dedos perambulam o que as mentes cheias de esperança manifestam.

Esse, o momento certo de ser pedra, apedrejando a corrupção, a mentira, as promessas hipócritas, a incompetência, enfim, todas as mazelas políticas que nossos ancestrais já sofreram na pele o que nós teimamos em manter, muitas vezes com o primeiro sorriso falso ou uma palavra eivada do verniz social, mas sem profundidade ética e sinceridade.

- Não gosto de política, dizem alguns. - Todo político é ladrão, gritam outros, desdenhando a arte de governar. Mas aí vem o grande filósofo Platão com sua inequívoca sabedoria e traz essa pérola: “A desgraça daqueles que se desinteressam pela Política é serem governados pelos que se interessam.”

Existem pedras das mais diversas qualidades, posso, por exemplo, ser uma pedra preciosa ou uma pedra bruta sem valor nenhum. Significa que mesmo sendo pedra posso ter também as qualidades do respeito, da ética, da justiça, da responsabilidade social, que vai me manter sempre na condição de um interlocutor cuja opinião terá o maior valor seja para um amigo ou para um adversário.

“Quem está na chuva, tem que se molhar”, essa é uma boa frase para aqueles que tomam a importante decisão de representar um grupo de pessoas para em seu nome decidir de forma responsável quais os caminhos seguir.

Tornam-se vidraça. Serão julgados pelas mais diversas “pedras”, podem, porém se fortalecer com o tempo e o grande tempero do vidro será o comportamento ético, o esforço e o desejo de acertar. A história comumente é a sua única aliada e chega às vezes tarde demais com suas verdades. Talvez estas sejam aqueles belíssimos vitrais das grandes catedrais que o tempo só aviva e embeleza suas cores e figuras maravilhosas.

Um amigo me disse outro dia, “Só haverá mudança quando a sociedade perceber que pode COMBATER A SUA MISÉRIA e todos os outros problemas sociais ATRAVÉS DO VOTO e começar a eleger melhores representantes. A eleição nos torna sócios de nossa Cidade, de nosso Estado e de nosso País e não apenas meros espectadores de um show.

Esta a diferença entre um eleitor e um simples votante, de um “politiqueiro” e um verdadeiro político. Eis a questão!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O homem lama


O homem está lá
impávido,
lambuzado,
na sarrapilha,
naquelas gretas de contração,
como se fossem as argilas que ressecam no sol à pino,
mas o homem está lá,
sem nenhuma vergonha e nem mêdo,
enquanto alguns vagam pedintes,
outros roubando,
uns invadindo,
o homem alí está, num ócio calculado,
sem estremecimento humano ou animal,
sem sistema nervoso,
mas com esperança no rosto parado e inquieto,
finalmente é terra,
para este homem é vida.



sábado, 17 de julho de 2010

Inpe registra 109,6 km2 de desmatamentos no mês de maio



O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgou nesta quinta-feira (15) os dados de desmatamento da Amazônia no mês de maio de 2010, obtidos pelo sistema Deter. Foram 109,6 km2 de florestas desmatadas.
O Inpe registrou desmatamentos em quatro estados: Mato Grosso (51,9 km2), Pará (37,2 km2), Rondônia (10,7 km2) e Amazonas (9,8 km2). Não foi possível monitorar 45% da Amazônia, que estava coberta por nuvens.
A maior parte do desmatamento detectado (56%) corresponde ao corte raso (total supressão da floresta). Cerca de 40% do desmatamento foi considerado degradação florestal de alta intensidade. Apenas 0,8% dos alertas não era desmatamento. O restante foi considerado como floresta degradada de média ou baixa intensidade.
O desmatamento de maio de 2010 foi menor do que o registrado em maio de 2009, quando o Inpe detectou 123,7 km2 desmatados. Entretanto, o instituto alerta que, devido a cobertura de nuvens, não é possível fazer a comparação entre os meses.
Já na comparação do acumulado do ano do desmatamento - que começa em agosto e termina em julho do ano seguinte - tivemos queda na quantidade desmatada. Entre agosto de 2009 e maio de 2010, foram registrados 1.567 km2 desmatados. No mesmo período do ano anterior, foram 2.960 km2. Isso representa uma queda de quase 50%.

(Amazônia.org.br)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Galeria virtual de Cartoons de Meio Ambiente


Aconteceu em Brasília em junho de 2010 o 3º Salão Internacional Pátio Brasil de Humor sobre Meio Ambiente com o tema, Preservação do Solo. Como estava passando por lá, fotografei e considerando que em muitos lugares do Brasil temos muito poucas oportunidades de ver esse tipo de evento, resolvi disponibilizar as fotografias.

De qualquer maneira não deixei de lamentar pela falta que nos faz eventos e exposições de arte em no interior. Sei que não é por falta de artistas, pois conheço vários com grande potencial. Quem sabe aparece algum movimento ativista cultural para trazer ou desenvolver atividades artísticas dando oportunidades aos nossos valores perdidos.

Uma idéia seria as lojas e/ou bancos, por exemplo, disponibilizassem seus espaços e patrocinassem lá mesmo exposições de arte e cultura em geral.























segunda-feira, 21 de junho de 2010

O teatro nuclear


A proliferação de armas nucleares e um possível desarmamento se encontram entre os principais temas da agenda política mundial apesar de as chamadas armas leves e portáteis (pistolas, rifles, metralhadoras leves, lança-granadas, morteiros, armas anti-tanques móveis e lança-foguetes, inclusive lança-mísseis anti-aéreos portáteis) serem as verdadeiras armas de destruição em massa. A Small Arms Survey realizou pesquisa em 2009 que confirma o crescimento contínuo do comércio global dessas armas. O valor do comércio mundial de atingiu US $ 2,9 bilhões em 2006, um aumento de 28% desde 2000. Os Estados Unidos, aparecem como o maior exportador e o maior importador dessas armas que entre 2001 e de 2006 foram responsáveis pela morte de 450.000 pessoas.
O ano de 2010 se revela de particular importância na questão nuclear. O acordo firmado entre Rússia e os Estados Unidos sobre a redução da armas nucleares estratégicas, a publicação do informe Nuclear Posture Review que identifica a capacidade nuclear que a administração Obama espera para os próximos quatro anos e a conferência de avaliação do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Curioso notar que os Estados que possuem armas nucleares (Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra e China – todos signatarios del TNP- possuem 90% das armas nucleares sendo o restante distribuído entre Índia, Paquistão e Israel) são os que mais reivindicam um “mundo sem armas nucleares.”
A mídia saudou como um grande passo para a paz o encontro ( maio) entre o Nobel da Paz, Obama, e o recém admitido na “comunidade ocidental”, Medvedev, em que acordaram reduzir seus arsenais estratégicos em torno de 1550 ogivas para cada um. Especula-se que, atualmente, existam em torno de 23.000 armas nucleares, ou em outras palavras, 150.000 explosões nucleares como a de Hiroshima – não fique abismado que é isso mesmo! Mas a “comunidade ocidental” procura tranqüilizar-nos informando que são 40.000 menos que nos tempos críticos da Guerra Fria. Vamos traduzir em números, mais uma vez. O que eles nos dizem é: durante a guerra fria a capacidade nuclear existente poderia destruir o mundo centenas de vezes. Portanto, agora pode-se acalmar que os lideres mundiais, que são muito racionais, informam que fizeram um acordo e o mundo poderá ser destruído apenas algumas dezenas de vezes.
A administração Obama apresentou a sua reformulação da estratégia nuclear como algo completamente revolucionário. Agora, diferentemente da era Bush, ao invés de reservar a possibilidade de ataques nucleares, em resposta a um ataque nuclear, ou um ataque por outras formas de destruição em massa (como armas químicas e biológicas) os EUA declaram que o papel fundamental de seu arsenal é impedir eventuais ataques nucleares ao pais e seus aliados. A chamada revisão da estratégia declara que “os EUA não pode usar ou ameaçar usar armas contra os não-nucleares que fazem parte do tratado de não proliferação nuclear, ou seja Irã e Coréia do Norte ainda se constituem em um possível alvo.
Pergunto se agora algum lugar do mundo se sente seguro com esta nova declaração no caso de uma crise ou uma guerra com o envolvimento dos EUA. Você sabe realmente quando ou como um Estado nuclear poderá realmente usar o seu arsenal para proteger seus interesses? Você acha que é razoável correr esse risco?
Além disso, a decisão de excluir estados com armas nucleares, não-signatários do TNP, parece contraproducente como bem assinalou o especialista Stephen Walt. Pois, se o Irã continua a ser um alvo nuclear, mesmo quando não tem suas próprias armas isso apenas poderá lhe dar incentivos adicionais para perseguir uma opção das armas nucleares pelos mesmos argumentos que os EUA justificam em ter o seu próprio arsenal.
Se o governo dos EUA acredita que o papel fundamental das armas nucleares é impedir um ataque, e agora diz que ainda reserva a opção de usar armas nucleares contra o Irã, então não seria razoável concluir que o Irã ou qualquer outro pais, da mesma forma, poderia usar um arsenal nuclear para sua segurança cujo papel fundamental seria o de impedir que os EUA façam isso?
Creio que nesse terreno estamos mais próximos do Teatro do Absurdo do que propriamente da política internacional.
* Reginaldo Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC-SP.
(Carta Maior)

terça-feira, 1 de junho de 2010

A saudade do servo na velha diplomacia brasileira


O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do servo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de servo. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do oprimido. “Com humor comentou Frei Betto: “em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor”. Quer dizer, o oprimido hospeda em si o opressor e é exatamente isso que o faz oprimido”. A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor, mas o cidadão livre.

Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor. O Globo fala em “suicídio diplomático” (24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais: “Sucursal do Império”, pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, têm seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.

As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.

O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições.

O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.

A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.

Leonardo Boff - Teólogo e professor emérito de ética da UERJ.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

As usinas do Rio Tapajós em debate na Cartilha


Criada com o intuito de sensibilizar as populações da região do Tapajós de maneira educativa, a Cartilha em Defesa do Rio Tapajós ilustra as verdades e mentiras sobre a construção de cinco hidrelétricas na Amazônia pelo governo federal. O documento está sendo distribuído para movimentos sociais e comunidades que devem ser atingidas pelas hidrelétricas, e foi alvo de uma polêmica na mídia nacional.

Acusada de incentivar a violência, elucidando possíveis brutalidades por parte dos povos indígenas da região, a cartilha foi condenada pelo jornal Folha de S. Paulo por ser negativa e incriminadora. Nesta entrevista, concedida por telefone, padre Edilberto Sena, idealizador do documento e coordenador da Rádio Rural AM de Santarém no Pará, diz que uma eventual reação violenta por parte dos Munduruku seria apenas uma resposta à maneira como o governo federal vem lidando com esta questão, sem qualquer tipo de diálogo e preocupação com o povo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como foi o episódio em que a Folha noticiou a Cartilha em Defesa do Rio Tapajós?

Edilberto Sena - Alguém do jornal Folha de São Paulo viu alguma informação sobre nossa cartilha e me telefonou pedindo esclarecimentos. Perguntou se eu era, de fato, um dos membros do Frente em Defesa da Amazônia, um movimento popular de nossa região, e se fazíamos parte da produção da cartilha. Expliquei que sim, que nossa cartilha tem uma função educativa para sensibilizar as populações da região, já que o governo está fazendo um trabalho sorrateiro para implantar hidrelétricas no Rio Tapajós, sem negociar e dialogar com o povo.

Desde 1996, a Eletrobrás, através da Eletronorte, vem estudando e articulando para fazer este projeto. A pessoa da Folha de São Paulo disse que achava a cartilha muito pesada e que estávamos incentivando o crime. Perguntei se esta pessoa aceitava que eu escrevesse uma explicação dos motivos de nossa cartilha ser inocente. Aí, fiz a carta para o jornal, dizendo que, no entendimento do coletivo da região, sentimos que quem está sendo criminoso é o governo federal, que quer implantar cinco mega-hidrelétricas na bacia do Rio Tapajós sem levar em consideração nossas culturas e vidas. Lamentavelmente, o primeiro articulista (João Carlos Magalhães) fez uma menção muito rápida sobre o que eu disse. O que mais foi comentado é que a cartilha é negativa e incriminadora. O outro articulista, Cláudio (Ângelo), foi quem colocou mais informações da carta.

IHU On-Line - Na sua carta-resposta, o senhor diz que qualquer atitude de inconformismo de movimentos sociais é logo considerada insubordinação à ordem democrática. Como isso acontece em relação ao movimento contra as hidrelétricas no rio Tapajós?

Edilberto Sena - Estamos sendo agredidos, principalmente, em nossa região, no oeste do Pará. A situação é muito grave. Somos agredidos pelas madeireiras, pelos plantadores de soja que vieram do Mato Grosso do Sul, e pelas mineradoras estrangeiras, como a Alcoa, a Rio Tinto, a Mineração Rio do Norte. Essas empresas estão nos agredindo, dizendo que somos preguiçosos, que caboclo não sabe aproveitar a riqueza que tem. Por último, vem o governo federal e, subserviente a essas grandes empresas, decide implantar essas hidrelétricas na região, tanto no Rio Xingu, que é vizinho nosso, como no Rio Tapajós.

Nos sentimos agredidos. A Amazônia é tratada pelo governo central e pelas grandes empresas, tanto do sul quanto do estrangeiro, como uma colônia, do mesmo jeito que o Marquês de Pombal tratava nossa região. Eles chegam aqui, tomam conta, mudam de nome, como se fôssemos uma colônia de pessoas sem raciocínio. Sentimos, também, que o próprio governo federal, que elegemos por dizer que ia mudar o modelo de administração da nação brasileira, trata os povos da Amazônia como descartáveis.

O Presidente da República chegou a dizer que os obstáculos ao crescimento econômico do Brasil são os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas, as ONGs e até o Ministério Público Federal. Comparo, em menor escala, nossa polução com o povo palestino diante de Israel, que os trata como descartáveis. Nosso governo e as grandes empresas esquecem que são 25 milhões de seres humanos que vivem na Amazônia. Eles querem que fiquemos calados, de braços cruzados e democraticamente subservientes.

IHU On-Line - O governo federal não fez nenhum contato com os povos da região?

Edilberto Sena - Pela lei brasileira, um parque nacional é uma área sagrada e intocável, só se pode entrar lá para fazer turismo guiado e pesquisa orientada. O conselho nos convidou para uma conversa junto à Eletronorte em Itaituba. Vieram três engenheiros da Eletronorte, dois de Brasília e um de Manaus, e dialogamos na mesa redonda. Eles nos mostraram seu lado, e mostrei nossa preocupação e os dados, que também estão em nossa cartilha. Os engenheiros se calaram e não toparam o desafio de dialogar. Eles nos mostraram um documentário chamado “Complexo Tapajós”, que, para nós, é uma indignação. É tecnicamente bem feito para iludir os desavisados. Fui mostrando como tudo aquilo é mentira, essa história de escadinha para peixes, de plataforma, de impactos mínimos e de recuperação da floresta. Eles querem que engulamos isso.

Depois o conselho pediu que nos afastássemos. Ele se reuniu e decidiu que irá defender o parque nacional de acordo com a Constituição brasileira, não de acordo com os truques do Ministério de Minas e Energia. Posteriormente, eles foram à Câmara de Vereadores de Itaituba com a Eletronorte. A Eletronorte pega esse vereadores, que já têm um passado triste porque venderam o direito de isenção à fábrica de cimento Caima, coloca-os em um avião, leva-os para Itaituba, mostram a eles as belezas da cidade. Os vereadores de Itaituba, que terão de assinar uma licença de trabalho, estão aplaudindo. Após isso, a Câmara de Vereadores de Santarém, vendo que a coisa estava sendo discutida, convocou a Eletronorte e a nós para um debate na câmara. A Eletronorte não compareceu, fiquei falando sozinho, mas aproveitei para falar sobre as informações que temos. É isso que o governo federal está infligindo para o norte.

Um vereador me disse que viu as difamações, ficou impressionado e estava disposto a tirar dinheiro do próprio salário para ajudar a montar uma cartilha que sensibilizasse a população sobre o que está acontecendo. Outros resolveram ajudar, como os grupos dos Franciscanos, dos Padres do Verbo Divino, nosso próprio grupo, e a ONG Fase, de Belém. Assim montamos esta cartilha que está sendo divulgada. O que sentimos hoje é que não há diálogo por parte do governo. Apenas alguns sites na Internet têm mostrado quais são os planos que o governo tem para nossa região.

IHU On-Line - A Cartilha em defesa do rio Tapajós sugere alguma reação às hidrelétricas?

Praia em Santarém, Pará

Edilberto Sena - Não vamos organizar um exército ou uma guerrilha porque nosso povo é muito pacato. O que queremos com nossa cartilha é que as populações, primeiramente, se deem conta do que estão Praia em Santarém, no Pará armando para nós. Depois de construir uma barragem -só a primeira tem 36 metros de altura-, o Rio Tapajós será estancado, e isso irá atingir até as belas praias de Santarém. Tem uma foto na cartilha mostrando a cidade de Santarém no verão passado, quando o Rio Amazonas domina o Rio Tapajós e invade a frente da cidade com água barrenta. Imagine se fizerem de fato uma barragem fechando o Rio Tapajós e deixando escorrer a água só pelo buraco de cima da turbina. Deste modo, irá atingir todas as praias até Santarém. Estamos tentando ilustrar, também, para as pessoas mais simples e de periferias.

A pedido do SESC, fiz uma exposição para pessoas que estavam participando de uma reunião da associação. Eram pessoas humildes e simples. Levei o documentário bandido do governo e a cartilha. Pedi para um leigo ler a carta dos índios Munduruku. Na medida em que as pessoas leem isso, vão vendo a seriedade da informação e confiando na nossa reputação de informantes. E esse é só o primeiro ponto de nossa cartilha.

IHU On-Line - E qual é o segundo?

Edilberto Sena - O segundo é que, despertando a consciência, a cartilha amplia a Aliança Tapajós Vivo. As pessoas que tomam consciência se unem nessa luta para que tentemos empatar esse desastre econômico, social e ecológico em nossa região. Teremos que fazer alguma forma de empate, seja fechando o rio, bloqueando as rodovias, contanto que a sociedade brasileira, que fala da preservação da Amazônia, compreenda o que acontece conosco assim como a situação de Belo Monte. Estou maravilhado com o pessoal do sul, do nordeste e até do estrangeiro, que se dá conta da situação de Belo Monte. O que me deixa triste é o presidente, que já andou na Amazônia enquanto era candidato, que já foi um flagelado do nordeste, simplesmente nos considerar descartáveis.
Nossa energia hoje vem de Tucuruí. Para nossa surpresa veio um alemão querendo fazer um documentário sobre Tapajós. Quando ele chegou à comunidade de São Luiz, viu os postes de rua e perguntou o que eram. Era a energia de Tucuruí, que já chega no alto do Tapajós. Aí perguntam por que vão fazer outras hidrelétricas se já temos energia abundante. É isso que queremos com nossa cartilha, conscientizar.

IHU On-Line - Em que fase está o projeto de construção das hidrelétricas no rio Tapajós?

Edilberto Sena - O que sabemos é o que anuncia Tomas Kim, da Eletrobras, que, ainda no ano de 2010, eles irão fazer a abertura do leilão das hidrelétricas do Tapajós. Eles já fizeram os cálculos de quanta energia será gerada em São Luiz, em Jatobá, em Caí e em Ilha dos Patos. Eles analisam tudo pelo lado técnico e econômico. As hidrelétricas do Tapajós, juntas, gerarão 95% daquilo que eles anunciam que gerará Belo Monte, com a vantagem de que, no Tapajós, a diminuição da força da água é menor do que no Xingu. Tanto que os críticos estão dizendo que Xingu gerará 11 mil megawatts no inverno, mas vai gerar 1.500 no verão. No Tapajós, até agora, não disseram quanto será produzido no verão, mas certamente será mais do que Belo Monte.

IHU On-Line - Que tipo de informações estão chegando para os povos da região que serão atingidos pelas obras das hidrelétricas do rio Tapajós?

Edilberto Sena - O povo Munduruku é composto por cerca de 15 mil pessoas, em 105 aldeias. Eles tiveram uma assembleia de caciques há um mês, em frente à cidade de Jacareacanga. O pessoal da Frente em Defesa da Amazônia esteve lá, a convite deles, para levar cartilhas. Os Munduruku terão suas terras tomadas, por isso, os índios mandaram uma carta ao presidente Lula. Os índios mandaram dizer ao presidente que precisam do rio e da floresta, que não vai admitir que o governo venha tomar aquilo que é deles e que estão dispostos a enfrentar o governo. Nesta carta, havia um desenho de dois índios. Um deles estava com um tacape e uma flecha na mão e o outro com a cabeça sangrando. Os jovens quiseram dizer que nossos antepassados, quando iam para a guerra, cortavam a cabeça do inimigo, cozinhavam-na e comiam-na. Isso simboliza a cultura do povo Munduruku, um povo guerreiro. Publicamos esse desenho na carta, e a Folha de São Paulo e outros jornais de direita disseram que estamos estimulando o crime e a violência. O povo que escreve isso não raciocina, ou não quer raciocinar, que a violência está vindo de Brasília para cá. A violência é invadir sem dialogar.

Recentemente, o sítio Globo.org entrou em contato comigo, pediu-me uma cópia da cartilha para publicar. A entidade já sabia que nossa cartilha tem, em cada página, para facilitar a compreensão do povo, quadrinhos com historinhas. Um artista popular fez os quadrinhos muito bem e reproduziu a cultura Munduruku. Um deles traz uma freira perguntando para uma índia o que está para acontecer, e a índia com facão na mão dizendo que ia defender sua terra custe o que custar. O Globo.org queria publicar justamente este desenho, e não permiti. Ele me acusou de tirar seus direitos de expressão, mas disse que foi ele quem tirou meus direitos para utilizar o desenho de uma maneira desonesta e descontextualizada. Querendo dizer: Veja como o pessoal está revoltado e querendo fazer guerrilha. Fiquei chateado, mas mandei a cartilha para ser divulgada e proibi a divulgação daquela foto.

(IHU On-line)/Mercado Ético

Adaptação Nilson Mesquita